Recebi 10 ‘Nãos’​ seguidos até receber o ‘Sim’​

Na antiga empresa de telefonia que trabalhei por 11 anos, depois de ter trabalhado sete anos dentro de uma mesma diretoria de operações técnicas, resolvi mudar de área. Embora dentro dos primeiros sete anos iniciais da minha carreira eu tenha me desenvolvido muito, trabalhado com diferentes tecnologias e pessoas e desempenhado diferentes funções, eu precisava ver algo novo e me trasladar dentro do espectro corporativo para ganhar novas habilidades.

Naquele momento então resolvi começar a busca por novas posições, queria sair da área de operações e manutenção de telefonia e ir para a área de negócios. Ao longo de um ano e meio eu passei por onze processos seletivos internos e levei 10 ‘nãos’ na cara até ser aprovado no 11º.

Hoje, quando conto essa história para alguns amigos, a maioria diz que teria desistido muito antes.

Eu lembro muito bem do 11º processo, da posição conquistada, lembro de ter ido com o nível de energia super alto, motivado, com apetite, com “sangue nos olhos” como eu gosto de dizer. E esse é o ponto, como manter ou elevar seu nível de energia depois de ter recebidos tantas portas fechadas uma atrás da outra sem tempo de respirar?

A definição de resiliência, a palavra da moda! É como uma bola de borracha, se você a aperta, a pressiona, depois de soltá-la, ela volta ao seu estado original. A velocidade com que você volta ao seu estado normal depois de pressionado, chacoalhado, esmagado é proporcional ao seu nível de resiliência. E isso faz total diferença para você perseguir o seu próximo objetivo, caso contrário corremos o risco de entrar numa espiral negativa onde cada nova etapa entramos com um pouco menos de energia. Neste ponto as frustrações aumentam, a motivação cai e o apetite cai. As outras pessoas conseguem sentir o vigor, a vitalidade nos outros e esse também é um fator decisivo entre obter ou não o sucesso esperado.

Os 10 ‘Nãos’ seguidos que recebi foram necessários para eu chegar até aqui neste exato ponto. É assim que eu vejo a importância dos Nãos. Eles me levaram a trabalhar na área que me deu experiência em planejamento e gestão orçamentária necessária para, por exemplo, poder ser contratado pelo Google em 2007. Igualmente importante, foi nesta nova área que fiz uma amiga cujo marido já trabalhava no Google e pode me recomendar internamente.

Em nenhuma outra área dentro dos outros 10 processos seletivos anteriores eu teria encontrado essa oportunidade, a amiga que também poderia me referenciar dentro do Google.

Os Nãos me ensinaram. Cada processo foi uma oportunidade para aprender. Tem que haver uma reflexão depois de cada queda. Inclusive no sentido literal, outro dia levei um tombo de bicicleta, e imediatamente depois eu fiz uma análise do que deu errado e do que deu certo. Concluí que eu precisava trocar os pneus que estavam comigo há oito anos e como a pista estava molhada eles eram inseguros como sabonete; como eu caí no meio da avenida também concluí que fiz a decisão certa em atravessá-la no tempo certo quando não havia carros e também que utilizei técnicas de quedas que aprendi no Judô para proteger cabeça e coluna.

Enfim, eu tento passar todas as entrevistas na cabeça e ver onde eu poderia ter ido melhor, quais foram as perguntas diferentes e refletir sobre novas formas de respondê-las novamente. Quais são as leituras que fiz dos entrevistadores e como eu poderia ter criado mais empatia…

Tudo isso faz parte do processo de aprendizado.

Obviamente, esses não foram os únicos Nãos que recebi nem os últimos. Os insucessos em processos seletivos externos para outras empresas são incontáveis. Fora processos seletivos, recebo negativas todos os dias e elas vêm de diferentes formas, pessoas e instituições. O simples farol vermelho é um Não e está alí para nos dar segurança.

O dia que pararmos de receber os Nãos também vamos reduzir as oportunidades de aprender.