Você é o seu cargo ou o seu valor?
Recebi um e-mail assim:
“Oi Denis, tudo bem?
Sua participação no Summit 2021 está confirmada, encaminhei para você, em outro e-mail, o link para que realize seu credenciamento.
Modificamos alguns pontos no evento, encaminho abaixo:
O CONSUMIDOR MODERNO EXPERIENCE SUMMIT 2021 será realizado nos dias 24 a 27 de outubro de 2021.
LOCAL: Foz do Iguaçu (PR) | HOTEL: BELMOND
Hotel localizado ao lado das Cataratas do Iguaçu. Uma jornada visual, um ambiente imerso no Parque Nacional de Foz. Simplesmente o único hotel brasileiro 5 estrelas na lista da Forbes Travel Guide.”
Acima, está a mensagem de confirmação do evento no qual fui convidado para participar. Eu era vice-presidente de Vendas e Experiência do Cliente na então startup QuintoAndar. Nessa época, já tinha acumulado uma experiência grande gerenciando grandes operações voltadas para a experiência do cliente, em empresas como Google e Facebook.
O convite havia sido provocador e sedutor. Eu não teria nenhum custo de viagem ou acomodação, e teria uma oportunidade de encontro com nomes do segmento. Eles faziam questão de mencionar que o hotel era “simplesmente o único hotel brasileiro 5 estrelas na lista da Forbes…”
É assim que fazem para te conquistar. Mas será mesmo que queriam me conquistar ou estavam atrás do título que eu tinha naquele momento? A resposta veio na sequência, quando informei que tinha acabado de sair da empresa:
“Olá Denis, boa tarde, tudo bem?
Primeiramente, gostaria de lhe desejar sucesso em sua nova jornada.
Esclareço que o Summit se trata de um evento corporativo e, por esse motivo, os executivos são convidados atrelados às empresas que representam. No caso, sua participação estaria atrelada à representação do QuintoAndar, por isso, teremos que declinar sua presença.
Agradecemos sua compreensão.”
Os títulos importam – a percepção importa. Isso eu já sabia nessa época e, portanto, não me causou grandes desconfortos. Porém, isso não é algo de que todos tenham consciência, e esse é o objetivo deste artigo: trazer luz ao tema de que, muitas vezes, sua história e seu cérebro não são suficientes. Os títulos que você carrega na sua mochila servem como chaves de acesso a alguns lugares.
Antes, eu era VP de CX. Depois, virei ex-VP de CX. Ambos são considerados títulos, mas o último não servia mais para os organizadores do evento. Enquanto fui diretor para pequenas empresas no Facebook para a América Latina, recebi muitos convites para eventos, jantares e palestras. Depois disso, os convites reduziram. As relações mudaram, algumas pessoas eram próximas e se distanciaram. A maioria das relações é de interesse.
Essa é a regra do jogo: títulos importam. É claro que não somos o nosso currículo, mas não adianta o jovem querer vir com vontades idealistas, acreditando, por exemplo, que simplesmente “ser”, basta para o mercado – “não basta ser honesto, é preciso também parecer honesto.”
A primeira pergunta que gosto de fazer nas entrevistas que conduzo com candidatos – independentemente se é um candidato a CEO (como conselheiro de empresas, participo do recrutamento de CEOs) ou analista – é: quem é você? A maioria começa recitando seu currículo, que foi entregue muito antes no processo e que está explícito no LinkedIn.
Por uma questão cultural, estamos acostumados a mostrar nossos títulos e posses. Porém, com cuidado, tento explicar que o que realmente estou interessado em saber, primeiro, é com quem irei me relacionar boa parte do meu dia, caso venha a contratar tal pessoa.
Os títulos importam, mas muita gente foca neles e esquece do essencial. Esquece do que fica quando os diplomas estão amarelados demais para serem mostrados. Por isso, gosto da frase: “show me the money”, que quer dizer, ao pé da letra, “me mostre o dinheiro”, mas o sentido é: “me mostre a que veio” ou “me mostre o seu valor”.
Essa é mais uma edição da newsletter “Cresça ou Desapareça”. Parte do meu valor está em passar meus aprendizados e estudos no meio corporativo, gestão, liderança, governança e empreendedorismo. Talvez essa newsletter um dia se torne um título para mim, a depender do alcance e impacto nas pessoas. Mas, até lá, o que faço aqui é entregar um pouco de mim para uma audiência que vê valor no meu conteúdo.
Os títulos importam, e devemos cuidar e ser intencionais na construção deles, pois essa é a regra do jogo hoje. Mas, para o longo prazo e para as relações genuínas: quem é você além dos seus títulos? Se leu até aqui, comente se isso já aconteceu com você.
Esta é a newsletter Cresça ou Desapareça. Escrevo para quem entende que títulos são ferramentas, não identidade.
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