Em Novembro de 2018 eu participava como um dos painelistas do evento Juntos. Evento promovido pela McKinsey & Co destinado a jovens negros. Eu, como negro, tive a oportunidade de contar um pouco da minha história. Vindo da periferia de São Paulo, fui contratado pelo Google e cheguei ao Facebook, hoje como diretor de negócios para pequenas empresas.
A minha história se conecta de várias formas com a população negra, que em sua maioria se encontra na periferia em condições menos favoráveis.. Questões históricas explicam essas condições e não será o centro focal deste artigo.
Durante a minha fala no evento, eu prometi oferecer mentoria a cinco jovens presentes na audiência para o ano que entrava. Dos 400 jovens presentes, 126 se inscreveram.
Eu promovi um pequeno processo seletivo perguntando duas questões:
- Por que você gostaria de receber minha mentoria?
- Me conte uma história de um desafio não superado, você teve insucesso, e o que você fez para tentar superar.
Foram 126 histórias que me emocionaram. Eu passei as minhas férias de final de ano lendo-as. Todas, na íntegra, para manter o processo austero e em respeito a todos interessados.
Foi difícil escolher apenas cinco histórias e infelizmente não existia uma fórmula para escolher. Não fiz nenhuma avaliação técnica de gramática, redação ou qualquer outro filtro por região, escolaridade, idade… Nada disso. Foi mais uma questão de ver quem demonstrava mais apetite e também uma questão de conexão com a história contada, que também é influenciada pelo strorytelling e o estilo de escrita.
O motivo pelo qual ofereci mentoria é porque eu tive um mentor e sei a diferença que faz. Meu pai sempre esteve por perto me guiando dentro de suas capacidades.
Para mentorear é necessário ter repertório, ter vivido muitas experiências diferentes e ter crescido com elas. Se você cresceu na sua carreira é porque aprendeu com as suas experiências. Não adianta simplesmente fazer um curso de coaching ou mentoring e sair bancando o guru. O mentor provê possibilidades para economizar tempo de vida e de progresso de carreira simplesmente porque ele conhece, pois passou por situações parecidas.
Do outro lado, existe muita gente que, além de não ter um suporte, convive com pessoas que apostam contra, mesmo dentro da própria casa. A mãe diz que estudar é besteira, que o destino da filha é ser empregada doméstica e do filho é se tornar segurança. Esse exemplo é muito comum. Tenho outro exemplo: um amigo que desde criança era “educado” em meios de tapas e gritos dos pais. Como a pessoa pode se fortalecer e crescer como pessoa e profissional dessa maneira?
Embora consuma tempo, oferecer suporte para outras pessoas está dentro das minhas capacidades. A minha vontade é atender a todos os pedidos, mas infelizmente é fisicamente impossível, por isso eu escrevo os artigos. Para tentar atingir uma quantidade de pessoas maior, atuando em escala.
Eu tenho alguns outros colegas que pedem mentoria, mas como não tenho espaço na agenda para ser algo estruturado, acaba acontecendo esporadicamente em forma de almoço ou um café para aconselhamentos. Nesse caso, eu acabo sendo mais um advisor ou um sponsor.
A jornada de um mentor é uma via de mão dupla. A gente aprende também. O mentor deve estar aberto a aprender, para poder perceber partes sutís das histórias de cada um que se conectam com a sua própria. É um momento em que estamos canalizados no outro e por isso não somos tanto enviesados pelas nossas emoções: isso permite-nos ter mais clareza sobre situações que às vezes vivemos de forma semelhante.
Ainda, existe a satisfação de ver a transformação. Algumas vezes são claras as transformações em função dos aconselhamentos, mas em outras não,
embora ainda assim exista influência. Como todo trabalho que desempenhamos, queremos ver o resultado, ou ter o senso de progresso. Aqui não é diferente: quando o mentorando reconhece que fez melhor por causa das orientações, aí vem a sensação de execução. É como um reforço positivo para o mentor, tornando-se uma via de mão dupla.
Qual o maior erro que o mentorando comete?
Não se preparar para a sessão. Esse é o maior erro que o mentorando pode cometer. A sessão de mentoria é totalmente dedicada para o mentorando; se ele mesmo não se prepara para trazer pontos de trabalho, de reflexão ou de preocupação, por que o mentor deveria?
Toda sessão eu deixo lição de casa para os mentorandos, mas nem sempre elas são feitas.
Qual o comprometimento com a mentoria, consigo próprio?
É preciso disciplina. Eu mantenho notas de cada sessão que tenho com cada pessoa. Nem todas as pessoas estão acostumadas a escrever notas em reuniões. Embora algumas pessoas tenham super memórias, não é o caso de todos e ainda assim sempre fica esquecida alguma coisa. Então, como lembrar da tarefa, do aconselhamento? Algumas vezes acontece do mentorando não lembrar da lição de casa ou da última conversa. Aí vem novamente o sentimento de descompromisso e de tempo desperdiçado. Será que vale a pena continuar? Respeite o tempo do seu mentor. Esse é o principal fator pelo qual os mentorandos são dispensados.
Ao contrário de coaching, eu vejo a mentoria como um relacionamento um pouco mais pessoal, que vai se aprofundando com o tempo. O coaching tem uma forma mais socrática de fazer a pessoa chegar a suas próprias respostas. A mentoria permite ao mentor ser mais invasivo e dar direcionamentos mais assertivos, como dizer o que fazer. Existe um cuidado.
Eu como mentor busco o sucesso do mentorando, mas, como eu disse, a outra parte tem que estar engajada também: quanto mais disciplinada, maior é o alcance dessa parceria.
Dessa forma, eu vejo a mentoria trazendo a possibilidade de uma relação duradoura de amizade também.
Os temas abordados nunca são de hard skills, ou seja, o mentor nunca vai ser o cara que vai lhe ensinar a programar, montar uma planilha de excel ou montar um relatório.
A mentoria está quase sempre atrelada a um conflito entre pessoas e não com coisas. E a maioria das vezes o conflito é consigo mesmo: fazer escolhas, como enxergar o problema, o que fazer para mover adiante… Se não estamos resolvendo os conflitos intra ou interpessoais, não estamos movendo adiante, estamos parados. O mentor é um catalisador para isso.
Eu cresci com alguns mentores, sendo o meu pai o principal deles. Tive chefes e professores excepcionais. Sempre fui grato e respeitoso pelo tempo deles. Também sempre fiz a minha lição de casa e isso é o reforço positivo que eles precisam para se engajar com a sua história. Porque eu cresci com ajuda eu também procuro ajudar. Diria também que sempre devemos ter um mentor, independente da fase das nossas vidas.
Eu acredito na mágica da progressão geométrica. As chances das pessoas que receberam ajuda de alguém se tornarem multiplicadores são grandes. Cada uma delas num futuro podem entregar sua energia para outras que precisam e assim a mágica da progressão geométrica vai acontecendo.