A postura do estranho – o poder da nossa comunicação não verbal

Semana passada tive uma experiência inédita. Estava na recepção da empresa gestora de investimentos para conversar com meu assessor. Fui recebido pela recepcionista que pediu pra eu aguardar. Assim que me sentei, na poltrona à minha frente tinha um rapaz que estava cabisbaixo, cabeça apoiada no cotovelo, cotovelo apoiado no joelho e mão esfregando a testa. Linguagem corporal que passava preocupação e falta de confiança. Por causa de todo o contexto tive a sensação que ele estava ali para uma entrevista de emprego. Tive esse feeling.

A partir daí tive um impulso. Não sei saber se fiz certo ou errado, mas de qualquer maneira meu senso é fazer para os outros o que gostaria que fizessem comigo.

A recepcionista me abordou para me acompanhar até a sala de reunião onde meu assessor me encontraria. Contudo, antes de prosseguir eu perguntei a ela se o rapaz sentado à minha frente estava ali para uma entrevista de emprego. Assim que ela confirmou eu pedi um minuto para falar com ele.

Fui até ele muito discretamente pois havia mais gente perto. Me apresentei e perguntei se poderia ter uma palavrinha rápida com ele. 

Pedi pra ele me acompanhar até um local discreto da sala. Nos apresentamos formalmente. Vou usar o nome fictício André.

O diálogo tomou meio minuto, foi muito rápido. André me confirmou que estava ali para um processo seletivo. Me apresentei dizendo que eu tinha alguns bons anos recrutando pessoas, apenas para dar sustentação ao que diria depois. Disse a ele o quanto a postura dele estava me passando falta de autoconfiança e insegurança, que ele poderia abrir o peito e erguer a cabeça. Disse a ele que ele podia confiar nele mesmo, em seu potencial. Pronto! Foi só isso. Me despedi dele e não o vi nunca mais.

Detalhes fazem a diferença. No entanto, linguagem corporal não é um mero detalhe. Existem estudos que dizem que em algumas situações sua postura e expressão corporal vale mais que as palavras proferidas. Albert Mehrabian publicou o livro Silent Messages, no qual ele mostra sua pesquisa sobre comunicação não verbal, o famoso estudo que entrega 55 por cento de peso para a linguagem corporal do interlocutor e 38 por cento para o tom da voz.

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Nosso corpo manda milhares de micro sinais por minuto para o mundo a nossa volta. Esses sinais ora são interpretados subliminarmente e ora conscientemente. Para alguém com uma visão treinada, esses sinais ficam mais fáceis de notar e aí correções podem ser feitas. 

Por exemplo – você encontra um colega seu no corredor da empresa e começam a conversar, seu colega procura mostrar interesse verbal pelo que você diz, mas o corpo diz outra coisa através dos pés apontando para fora, outra direção que não a sua, os braços se cruzam e seu corpo mostra sutis movimentos de afastamento. Mesmo ele acenando com a cabeça e respondendo às suas perguntas, ele pode estar querendo fugir de você pois tem outro compromisso, reunião ou coisas para fazer. 

O uso do espelhamento, quando você mostra sutis movimentos que copiam o seu interlocutor gera uma aproximação. Isso se deve ao simples fato de os seres humanos buscarem os seus semelhantes. Tentar espelhar o ritmo e o tom da voz gera um pouco mais de empatia.

Por exemplo, existe a postura do super-herói que ajuda a criar confiança antes de subir num palco. Postura na qual você coloca suas mãos na cintura, abre o peito e ergue o queixo. Esses movimentos do corpo físico geram químicas associadas à confiança.

Enfim, meu intuito aqui não é passar todas as dicas de linguagem corporal, até porque eu não sou especialista, mas sim um entusiasta pelo tema. Se quiserem saber mais, eu indico o livro “Desvendando os segredos da Linguagem Corporal” de Allan & Barbara Pease, que li há uns 15 anos.

É impossível estarmos 100% consciente de todos os detalhes do nosso corpo, mente e alma.

Isso também não quer dizer que o rapaz da poltrona não era tecnicamente preparado para a posição disputada, mas como o conjunto dos detalhes faz a diferença, sem uma boa postura ele teria que provar ainda mais de sua capacidade técnica para o cargo.

Esses momentos me fazem perceber o quanto nos tornamos mais ou menos vulneráveis por não nos conectarmos com presente, com o agora. Prestar atenção em que nós e o mundo ao nosso redor estão dizendo. Me fez lembrar daqueles instantes logo após reuniões, apresentações ou entrevistas em que percebemos que deixamos algo importante a ser mencionado para trás. “Esqueci de dizer aquilo”. Alguns detalhes.

Detalhes fazem a diferença. Como eu faço para deixar menos detalhes para trás?

Preparo. Tento ter o hábito de me planejar olhando de maneira mais macro para a semana antes de ela começar e com mais detalhes para cada dia em cada véspera. Hoje, já olhei quais são as minhas reuniões de amanhã. Eu categorizo cada reunião por cores no meu calendário. Cada cor me diz o nível de preparo que eu preciso para cada uma. Vermelho para alto nível de preparo, amarelo para médio preparo e azul para baixo ou nenhum. Reuniões com alto nível de preparo, eu geralmente preciso ler relatórios e materiais compartilhados antecipadamente, ou então preciso preparar material para as mesmas.

A partir daí, se você se preparou, no momento daquela reunião ou entrevista, você acaba tendo a oportunidade de se conectar mais com o momento, e não tentando acompanhar o raciocínio olhando para os slides enquanto alguém está falando.

Claro que não é sempre que conseguimos nos preparar com antecedência, mas é o hábito que conta mais. Quanto mais você pratica essa diligência mais se torna automático esses movimentos em sua rotina. Falo por experiência própria.

Recomendo um exercício que gosto de fazer. Fazia bastante quando andava de transporte público para o trabalho. Tente observar as expressões corporais das pessoas ao seu redor e associá-las aos sentimentos delas. Perceber as pessoas que estão preocupadas, tranquilas, ansiosas, irritadas… acaba virando um exercício que ajuda na sua autocorreção e auto observância. Jogadores de pôquer profissionais são exímios praticantes desse exercício.

Vou contar um segredo. Por causa desses exercícios, fiz um ajuste em mim mesmo. Anos atrás, eu passei a perceber que quando eu ficava ansioso numa reunião minhas mãos ficam agitadas e existia alguma mudança no tom da minha voz. Com o tempo eu consegui migrar essa resposta corporal para os pés, eles se mexem de forma aleatória, mas assim, debaixo da mesa ninguém consegue ver. 🙂