Minha primeira conversa com alguém que acaba de entrar no meu time é sempre voltada a princípios e valores. Dentre eles, está a forma como lidamos com os problemas.
Eu divido em quatro formas:
1 – Você faz parte do problema: Aquele que vê algo errado e se abstém, fica calado e deixa o problema ali, corroendo o sistema; coloca-o debaixo do tapete ou, ainda pior, aumenta o problema através de fofoca nos corredores, plantando a discórdia, sendo reativo, braço curto, enfim, torcendo pra coisa dar errada.
Esse tipo de comportamento é inadmissível dentro dos times em que eu faço parte. Não aceito. Dentro do meu time esse profissional não tem espaço.
Lembro-me de um exemplo, quando eu trabalhava na Telefónica. Eu era técnico em telecomunicações e dava manutenção em centrais telefônicas. Uma certa vez, uma das centrais parou e milhares de pessoas ficaram sem comunicação – esse tipo de ocorrência acontecia e tinha uma severidade alta, pois serviços público também paravam juntos, como hospitais, polícia, bombeiros… Quando isso acontecia, uma equipe de técnicos era acionada imediatamente e, em alguns casos, até o diretor da área aparecia na central. Foi quando um dos técnicos, na frente do diretor, disse – “Eu sabia que isso ia acontecer!”
O diretor replicou: “Você sabia que isso iria acontecer e ainda assim não fez nada?”
O final da história é que o técnico foi mandado embora. O técnico sabia que a central não estava tendo a manutenção preventiva adequada e por isso, com ar de sabichão, disse que estava prevendo o ocorrido. Enfim, lição aprendida para muitos.
Se você sabe que algo ruim está prestes a acontecer e não faz nada, você se torna cúmplice. A inação também é ação.
2 – Você vê o problema e aponta – Essa atitude para mim é o mínimo que alguém pode fazer a respeito de um problema. Ajuda as coisas seguirem adiante pois, mesmo que não seja você a resolvê-lo, traz o problema à tona. Fazer com que as pessoas responsáveis vejam os problemas é importante.
No entanto, as próximas duas formas são realmente o que fazem as pessoas e todo o ecossistema em que estamos inseridos se desenvolverem. Vale ressaltar que, entre essas duas formas, não necessariamente coloco uma sobre a outra em grau de importância. Explicarei o porquê.
3 – Você aponta o problema e pensa numa solução – Quando as pessoas param de simplesmente apontar os problemas e começam a trazer junto propostas de solução, aí as coisas começam a se mover mais rapidamente.
Você passa a adotar o comportamento de dono (conforme escrevi no meu último artigo). A capacidade cognitiva, ou a capacidade de resolver problemas distintos, aumenta com esse exercício. Como um músculo que fica mais forte com a prática de exercícios físicos, ou como ficamos mais inteligentes por estudar mais. Se todas as vezes que virmos um problema passarmos a pensar nas possíveis respostas pra ele, desenvolvemos-nos. Além de ajudar o todo.
O papel do líder também é de fomentar esse tipo de atitude dentro do grupo. Fazendo as perguntas certas sempre que possível, como: Quais são as alternativas? Como você resolveria isso? Quais são os prós e contras?
Como disse anteriormente, essa forma de lidar com os problemas é igualmente importante à forma 4:
4 – Você toma a iniciativa para resolver o problema – Oras! Por que essa não é, sozinha, a forma mais importante? Nós queremos resolver problemas. Nos sentimos bem quando solucionamos uma “bucha”, não é? Também gostamos quando as pessoas ao nosso redor resolvem os problemas. Mas será que queremos que alguém resolva algo em que não tenha expertise? Não! Não incentivamos todos a serem “ultra-proativos” e saírem resolvendo qualquer tipo de problema.
Existem problemas que não estão ao nosso nível para resolver e, se incentivarmos a todos a tomarem a iniciativa de resolver todo e qualquer tipo de problema, encontraremos efeitos colaterais graves.
Sendo um pouco extremista, imagine se o estagiário receber alçada para resolver o problema que está na mesa do presidente.
Há duas semanas eu desloquei a clavícula lutando judô e um amigo meu, que não é da área da saúde, tentou colocar meu ombro no lugar. Como eu já havia sofrido uma lesão no outro ombro jogando basquete há 20 anos e, naquele caso, meus amigos conseguiram voltar meu ombro ao lugar para que eu pudesse ir ao hospital, eu imaginei que isso também seria possível na atual lesão e o permiti tentar. Não deu certo. Depois, já no hospital, o médico especialista, antes de tentar uma manobra, pediu exames de radiografia para saber se havia algum osso quebrado. Quando ele voltou com os resultados, disse que não existia manobra para o caso: o meu caso era cirúrgico. Imagine os danos que poderia ser causado ao tentar forçar meu ombro com os ligamentos da clavícula luxados?
Obviamente, todos nós resolvemos problemas de diferentes níveis todos os dias dentro do nosso escopo. Resolvemos tantas tarefas que a maioria delas passa despercebida pelas pessoas ao nosso redor e tudo bem.
De qualquer forma podemos pensar e sugerir soluções para qualquer problema sem tocar a clavícula deslocada, isso não traz prejuízo para ninguém.