O que o fim (e o retorno) do Orkut ensinam sobre crescimento

As redes sociais mudaram. E não necessariamente para melhor.

Hoje, são poucas as pessoas que se sentem realmente conectadas — mesmo com centenas (ou milhares) de seguidores. O feed virou vitrine. A conversa virou performance. O conteúdo, espetáculo.

Mas essa não é apenas uma crise de propósito. É também uma lição estratégica para quem lidera negócios.

O Orkut está voltando. E por mais que isso pareça apenas nostalgia, há um aprendizado relevante aqui: crescimento exige foco — e foco exige renúncia.

Um pouco da história, por dentro

Entrei no Google em 2007. Já era uma empresa grande, e o Orkut era um dos produtos globais com interesse em expansão — especialmente no Brasil. A rede social levava o nome do engenheiro que a criou em seu tempo livre, e rapidamente conquistou o país.

O espírito do Orkut era outro: não existia vaidade algorítmica, nem influência de palco. Existia conexão. A gente reencontrava amigos, participava de comunidades de interesse real, trocava depoimentos sinceros. A proposta era leve, humana, direta.

Mas aquele modelo não escalou globalmente.

A decisão que ninguém entendeu (mas fazia todo sentido)

Mesmo com mais de 300 milhões de usuários — em sua maioria brasileiros — e uma receita de US$ 50 milhões por ano, o Google decidiu encerrar a operação do Orkut.

Sim, US$ 50 milhões por ano. Mas o Google pode se dar ao luxo de priorizar.

Na época, a rede enfrentava barreiras estruturais para crescer fora do Brasil. Faltava regionalização. As discussões mais relevantes aconteciam em português, o que desestimulava a entrada de usuários de outros países.

Enquanto isso, o Facebook escalava rapidamente, com uma arquitetura pensada desde o início para o domínio global — e para prender a atenção. Era o início da era do engajamento como produto.

O Google tentou contra-atacar com o Google+, mas o jogo já estava perdido.

E aqui está a primeira lição estratégica:

Crescer exige foco. E foco significa, muitas vezes, cortar na carne.

Encerrar um produto que ainda dava retorno financeiro pode parecer um erro — mas manter algo desalinhado com o plano maior é mais custoso a longo prazo.

O que virou o mundo das redes sociais

De lá pra cá, as redes foram dominadas pelos algoritmos. Quanto mais tempo você passa rolando a tela, mais dinheiro elas ganham. Quanto mais você interage, mais você é retido. Quanto mais você se exibe, mais você se vicia. No processo, perdemos a conexão.

Hoje, meu próprio feed no Instagram mostra 90% de conteúdos que me interessam — mas quase nenhum deles vem de pessoas com quem eu convivo. É como folhear uma revista feita para mim, mas escrita por estranhos.

O social virou entretenimento. A rede virou palco.

Por que o Orkut pode dar certo agora

O criador da rede anunciou sua volta. Se você acessar orkut.com, vai encontrar uma mensagem direta, quase inocente — mas extremamente relevante: uma promessa de resgatar a essência.

  • Menos ego. Mais comunidade.
  • Menos vaidade. Mais proximidade.
  • Menos algoritmo. Mais intenção.
  • E por que pode dar certo?
  • Porque há espaço — e desejo — por uma alternativa.
  • Porque o produto carrega um nome forte, com apelo emocional legítimo.
  • E porque, diferentemente do passado, agora o foco está no que realmente importa.

Essa é a segunda grande lição estratégica:

Às vezes, vale a pena voltar — desde que você volte com clareza.

Posicionamento importa. Foco importa mais ainda.

Crescer é saber escolher

Empresas que crescem de verdade não fazem tudo. Elas sabem o que não fazer. Sabem que não dá para agradar a todos. Sabem que escalar o que funciona não é o mesmo que insistir no que ainda dá retorno. O Google estava certo ao encerrar o Orkut. E talvez o Orkut esteja certo ao voltar — agora com foco total, sem distrações.

E você?

Sua empresa está crescendo com clareza ou apenas seguindo o algoritmo do mercado?

Você tem coragem de dizer “não” para o que ainda dá dinheiro, mas já não faz sentido estratégico?

O crescimento sustentável — e saudável — exige renúncia.

Foco. Clareza. E, às vezes, a humildade de voltar ao começo com mais maturidade.

O Orkut pode ser só uma rede social.

Ou pode ser um espelho do que precisamos rever.


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