Projetos sem retorno: quanto custa a sua paixão?

Por um período, quando eu era analista de negócios na antiga Telefônica, parte do meu escopo era fazer a avaliação econômico-financeira dos planos de negócios dos projetos internos. O objetivo era saber se o projeto era viável ou não.

Uma vez, meu gerente e amigo, Guilherme de Faccio Paolozzi, no meio da tarde, chegou com uma encomenda: precisamos fazer a avaliação econômica de cerca de 10 projetos… para hoje! Parecia piada — mas não era. Provavelmente, essa era uma demanda vinda da sede espanhola, que dormiu na caixa de entrada de e-mail de algum diretor e fomos acionados de supetão.

Prontamente, eu e meu gestor começamos os trabalhos e varamos a madrugada. Até que era divertido — quando se tem um parceiro de trabalho que não arreda o pé e segue junto até o fim na trincheira. Eram muitas planilhas, muitos números, e não podíamos errar nas premissas. Qualquer premissa mal dimensionada poderia provocar uma alteração muito grande no resultado final. Seria a diferença entre viabilizar ou não o projeto.

Os projetos eram submetidos à aprovação de um comitê executivo na Espanha. Para decidir sobre o “Go” ou “No Go” do projeto, o comitê utilizava os indicadores financeiros de cada caso, entre eles a Taxa Interna de Retorno (TIR), Ponto de Equilíbrio (break-even), Retorno sobre o Investimento (RoI), Valor Presente Líquido (VPL), entre outros.

Esse era o processo em uma empresa multinacional que fatura bilhões de dólares. Ainda assim, passadas duas décadas e muitas empresas que eu pude assessorar, como executivo, conselheiro, mentor ou consultor, digo com propriedade, poucas grandes empresas têm um processo tão diligente como esse — quem dirá as pequenas e médias!

Dito isso, quantos projetos você já liderou ou nos quais trabalhou tiveram cálculos de viabilidade econômica? O menor exercício de calcular esses indicadores serviria como um fator decisivo para evitar um fracasso. Eu vi muitos projetos inviáveis sendo tratados como animais de estimação – isso acontece quando o dono do projeto ou o patrocinador (sponsor) não quer terminar por apego, ignora os fatos e assume apenas os vieses de confirmação (viés de confirmação ocorre quando você olha apenas os fatores que reforçam a sua convicção, ignorando os que contradizem). Os indicadores financeiros muitas vezes ajudam a eliminar esses vieses de confirmação.

Para ilustrar, tomemos a Taxa Interna de Retorno de um projeto. De forma simples, a TIR é a taxa de retorno que o projeto entrega ao longo da sua vida útil. Ou tecnicamente, é a taxa de desconto do fluxo de caixa do projeto que traz o Valor Presente Líquido a zero.

Suponha que você queira montar um e-commerce de óculos de sol. Você planeja a quantidade de óculos que deseja vender por mês, a uma margem líquida tal, gerando um caixa mensal. Dado um período de maturação do projeto, chegamos a uma taxa de retorno hipotética de 14% ao ano. Seu projeto é viável ou não? A resposta é: depende.

Depende do custo de oportunidade do seu capital. O custo de oportunidade é o valor que você abre mão ao escolher uma alternativa em vez de outra. Então, se você tem a oportunidade de investir em outro lugar, com o mesmo ou menor risco que o seu e-commerce de óculos, recebendo uma taxa de retorno maior que os 14%, logo seu projeto não é viável.

O custo de oportunidade é o preço invisível da escolha — uma espécie de pedágio silencioso que você paga toda vez que opta por um caminho e deixa outro para trás.

A questão é que o seu custo de oportunidade é alterado pelo ambiente externo, principalmente pelas políticas monetárias do governo. No atual momento, com a taxa básica de juros definida pelo Banco Central, a SELIC, definida em 14,75%, muitos projetos acabam se tornando inviáveis, já que os títulos do governo e outros fundos de renda fixa com risco baixo lhe garantem essa taxa, e se meu projeto não me pagar mais que isso, não compensa empreender. Por isso que a alta SELIC desestimula a economia.

Agora, você quer tomar dinheiro emprestado pagando 19% a 25% ao ano ao banco para investir na sua empresa. A sua empreitada vai te garantir mais que isso? Com qual risco?

Antes de mergulhar no próximo projeto, faça uma pergunta incômoda: estou apaixonado pela ideia… ou ela realmente se sustenta em números?


E se ainda não assinou, está esperando o quê?

Toda semana, ideias práticas e provocadoras para fazer sua empresa crescer — ou pelo menos, não desaparecer. Assine agora e me acompanhe também no Instagram: @deniscaldeira.growth