O Tripé do Crescimento Pessoal: Qual das três pernas está falhando?

Ao longo dos últimos anos, passei a dedicar mais atenção ao contexto amplo do indivíduo. Não somente observando atentamente as pessoas que ajudo com mentorias, mas também me usando como o maior laboratório. A tríade corpo, mente e espírito nunca fez tanto sentido na busca por excelência, performance e crescimento.

Antes de avançar, faço uma ressalva para não espantar alguns leitores: não trarei aqui uma abordagem teológica ou dogmática em cima da palavra espírito, mas sim sobre nossas virtudes e vícios.

Na maior parte da minha vida, sempre trabalhei esses aspectos, mas nunca pensando conscientemente em suas complementaridades. Nunca observando qual era a perna desse tripé que exigiria mais atenção naquele momento em comparação com as outras. Com o tempo e a maturidade avançando, começou a ficar mais clara a importância de se auto-observar e entender o que deve ser feito para continuar crescendo como ser humano. Lembrando que buscar esse crescimento leva também ao avanço nos aspectos subjacentes às nossas vidas, como ser um pai melhor, um profissional melhor, um cidadão melhor…

O corpo inquieto ou dolorido interfere diretamente na mente. Pouca gente sabe, mas há cerca de quinze anos me formei como instrutor de yoga e dei aula por um ano para colegas do trabalho – enquanto atuava em finanças no Google. A yoga é dividida em oito partes, uma delas é a prática física também chamada de asana. Aprendi nessa época que a prática física existe para nos dar um corpo saudável, pois assim conseguimos permanecer mais tempo sentados imóveis meditando sem sentir incômodos físicos que distraem a mente.

Nossa mente é a faculdade que nos difere dos outros animais. Nela trazemos a nossa consciência e a nossa cognição, ou seja, nossa capacidade de pensar e resolver problemas. Uma mente distraída, distante ou rasa, não entrega o que poderia entregar. Por exemplo, para escrever esse artigo, tenho que me manter concentrado e preciso ter o conteúdo para isso. Acumular conteúdo faz parte do exercício da mente.

Ler, estudar, buscar experiências diversas são formas de trabalhar a mente. Quanto maior for o nosso repertório de experiências, problemas enfrentados e conteúdo assimilado, maior será a nossa capacidade de resolver problemas novos e diferentes.

Sempre que eu falo sobre a capacidade cognitiva, uso o caso emblemático das Torres Gêmeas como exemplo. Não havia um plano específico para reagir a um ataque com aviões comerciais se chocando contra as torres. Mas havia uma série de soluções particionadas provenientes de outros planos – para terremotos, ataques aéreos, bombas biológicas, furacões… A soma das partes possibilitou a resposta a um problema inusitado.

O prefeito Rudy Giuliani foi eleito o homem do ano pela revista Time. O mesmo ocorre com a mente: ela acessa diferentes experiências e soluções fragmentadas para resolver problemas complexos. É a engenharia do improviso baseada em repertório.

E o espírito? Platão via o espírito como a parte imaterial e eterna nossa, responsável pela busca da verdade. Carl Jung tem uma visão profunda e provocadora sobre o espírito. Para ele, o espírito é mais que um conceito metafísico – é uma realidade psíquica, vivo dentro de cada ser humano. Para Jung, desenvolver o espírito é se alinhar ao nosso Eu mais autêntico — o que dá sentido, direção e coesão à experiência humana.

Tanto a religião, filosofia ou a psique trazem as virtudes de alguém como a expressão da alma. E o fortalecimento das virtudes como o fortalecimento da alma. Do outro lado, nossos vícios e vaidade nos desviam desse significado e direção que Jung menciona. Marco Aurélio, imperador romano e filósofo estóico disse em seu livro Meditações:

É um absurdo que a expressão de um homem precise obedecer e assumir determinada forma e estilo de beleza de acordo com as ordens da mente, visto que a própria mente não é moldada e estilizada à beleza por si mesma.

Hoje, num mundo cheio de estímulos, fica muito fácil adquirirmos vícios. Por exemplo, as redes sociais, regadas a regras e convenções que ditam como devemos agir, vestir e consumir, muitas vezes nos desviando do nosso verdadeiro significado. O quanto nossa mente é desviada pelos vícios e crenças limitantes por negligenciarmos as qualidades que formam um homem virtuoso?

Como testar nossas virtudes? Marco Aurélio ainda faz uma provocação para isso fazendo as seguintes perguntas: Quando isso terminar vai ser condizente comigo? Não haverá um momento em que me arrependerei disso? Se eu não olhar para dentro, serei privado de alguma coisa.

Trabalhar a espiritualidade é se aproximar cada vez mais do nosso Eu Mesmo, ou self, como diz Jung. Podemos fazer isso através de meditação, trabalhos altruístas, estudando obras que nos dão altivez e escrevendo sobre nossos sentimentos. Muitas pessoas, incluindo CEOs, estão voltando a escrever diários. Jordan B Peterson diz que escrever, principalmente à mão, é uma das formas mais eficientes de nos conectarmos com a nossa alma.

Unindo tudo

A comunhão consciente desse tripé em nossas vidas tem o poder de mudar tudo ao nosso redor.

Crescer para mim exige trabalhar essas hastes, pois se uma quebra todo o tripé cai. Um corpo débil vai te tirar o foco, hábitos ruins também vão te tirar do seu propósito e uma mente fraca não te trará conhecimento como insumos para seu crescimento.

O crescimento do indivíduo leva ao crescimento do todo, uma vez que o todo contém cada indivíduo.

Profissionais bem sucedidos o são prioritariamente porque tem um senso de direção maior, são mais controlados, e definem a sua agenda ao contrário de deixarem os outros a definirem.

Como anda o seu tripé? Há alguma perna que precisa de mais atenção neste momento?


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